Sombra severa

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 Sombra severa, do pernambucano Raimundo Carrero, retoma, renovando-a como ninguém fez até agora, a forte tradição do regionalismo, essa grande escola literária que o Brasil produziu. Mas não se pense nos pastiches (de Zé Lins, Graciliano Ramos e Jorge Amado) a que parecia ter sido condenada até hoje a literatura do Nordeste e de outras regiões do país. Longe disso. Embora sem conseguir esconder o sotaque, o romance de Carrero se filia a essa tendência exatamente por levar ainda mais adiante a simplificação e o despojamento que caracterizam o regionalismo, em oposição ao beletrismo vigente quando de sua aparição.

Se se quisesse, como referência circunstancial, citar um desses modismos tolos (simples apelos de venda) que não nos cansamos de importar, poderíamos falar em minimalismo. Mas só à guisa de referência, pois Carrero não vai nessa. Sombra severa escapa de rótulos, mesmo ao de regionalismo.

A história é, estilística e fabulisticamente, de um ascetismo bíblico; não por acaso, os poucos personagens principais - Abel, Sara, Judas - têm nomes bíblicos. A trama envolve um triângulo - não se pode chamar de amoroso, mas de primitivas paixões - que tem mais que ver com o destino das tragédias gregas do que com sentimentos apenas humanos, mortais. Antes do vivê-los, os personagens parecem condenados a cumprir seus papéis, com quase nenhum - se é que têm algum - arbítrio. É uma história de traição e assassinatos, com justos e danados - ou seja, inocentes todos.

Mas não é só isso. Da narrativa, foram retiradas todas as referências de tempo e lugar, de modo que nada há daquele pitoresco que, mesmo nas áridas histórias de Graciliano Ramos, ainda situam os personagens e a ação num determinado ponto e época da Terra. Em Carrero, o único ponto de referência que ainda subsiste - involuntariamente, crê-se - é um leve sotaque naturalmente acompanhado de requisitos da retórica nordestina. Numa tradução, até mesmo isso desapareceria.

Temperando um pouco essa secura, Carrero lança mão do elemento mágico da cartomancia, que acentua ainda mais o clima de destino escrito dos personagens, com o poder de descrição das infinitas combinações das cartas, que causa aquela suspensão da descrença de que falam os críticos anglo-saxões.

Sombra severa, como se vê, é um romance que já nasce com dimensões de clássico.

Marcos Santarrita

Especificações Técnicas
Autor(a) Raimundo Carrero
Nº de páginas 128
ISBN 85-7321-138-5
Formato 14x21 cm

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