Popol Vuh

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Esta reedição de uma das cosmogonias mais importantes do Novo Mundo, conhecida como Popol Vuh (Livro do Conselho), apresenta o texto original do século XVI, em maia-quiché, tal como era falado e escrito nas montanhas da Guatemala, e sua tradução integral para o português (tomou-se como referência o original e a tradução para o inglês de Munro Edmonson, considerada a mais inovadora  de todas). Diferentemente de outras edições para o inglês, o espanhol e outras línguas, que apresentam um  texto simplificado em prosa, a presente versão recupera os dísticos originais, oferecendo ao leitor de língua portuguesa toda a riqueza imagética e sonora deste poema épico que narra a vida na Mesoamérica, desde a criação do mundo até os primeiros contatos com os conquistadores espanhóis.

Reunindo uma vasta gama de conhecimentos nativos, o poema relata, em mais de 8 000 versos, a atuação dos deuses, a formação da Terra, a evolução das espécies e a criação do homem de milho, configurando-se ao mesmo tempo como literatura e como documento, ao reivindicar, perante as autoridades espanholas, a quem o poema parece endereçar-se inicialmente, a posse das terras mesoamericanas descritas no texto. Desse modo, é extremamente lúcida a visão de mundo que o poema encerra, vendo com olhos críticos a chegada do outro. Porém, essa questão não esgota o texto, que explora em profundidade as várias etapas por que passou, do tempo mítico ao tempo histórico, a cultura maia, considerada, no seu apogeu, uma das mais sofisticadas que o mundo antigo já conheceu.

A matemática, a biologia, as artes, todo o saber indígena está presente no Popol Vuh, que oferece ao leitor um amplo painel de uma sociedade ameríndia cuja riqueza imagética, filosófica e poética surpreende até hoje.

 Acompanhada de um vocabulário que traz um guia de pronúncia das palavras em maia-quiché, além de ensaios sobre o poema e sua repercussão política e cultural no  mundo e na América Latina em especial, esta reedição é um convite para o leitor brasileiro imergir na “Bíblia” ameríndia, como este épico é também conhecido.



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Revista Quatro cinco um

a revista dos livros  ano três, número vinte e um, abril de dois mil e dezenove

Poesia


A voz do todo

Parte cosmogonia, parte genealogia do povo maia, um dos livros mais importantes da Antiguidade das Américas ganha duas traduções

Leonardo Fróes
01abr2019 01h00

Uma das passagens de Popol Vuh, reproduzida no Códice de DresdenCódice Dresden, Sächsische Landesbibliothek

A revolta das panelas é um dos episódios mais instrutivos, sobretudo para quem vive hoje, dentre os muitos que compõem o Popol Vuh, o Livro do Conselho ou da Comunidade. Em sua forma preservada, essa epopeia centro-americana data de meados do século 16 e foi escrita pelos quichés em sua língua nativa. Descendentes diretos dos antigos maias, após intenso e obscuro nomadismo os quichés se fixaram, como outras tribos da mesma estirpe, com as quais rivalizavam e teriam tido conflitos, em territórios que se encontram na atual Guatemala.

Revoltam-se as panelas de barro, e com elas as moringas, os pratos, os potes, as pedras de moer e outros utensílios domésticos, contra o descaso de seus donos por sua manutenção em bom estado. Imbuídas de anseios de vingança, as vasilhas antes passivas, brusca e magicamente dotadas de fala e movimento ao se insurgirem, reclamam da falta de respeito e carinho com que até então eram tratadas. No fragor da revolta, elas se jogam em cima das pessoas, quebram seus ossos, lanham seu corpo e desfiguram seu rosto, visando enfim a exterminá-las.

Quando falam para aqueles que os oprimiam, assim se justificam, na tradução do Popol Vuh por Sérgio Medeiros, os apetrechos sublevados: “Sofrimento foi o que vocês nos infligiram. A fuligem se espalhava em nossas bocas, escurecidas estavam nossas faces. Estávamos sempre queimando no fogo. Vocês nos queimaram”. A mesma passagem, na tradução crítica de Josely Vianna Baptista, adquire um tom mais solene, como se os apetrechos em fúria quisessem esquivar-se de intimidade com os donos: “Dolorosas foram vossas ações contra nós. Nossas bocas estão tisnadas, nossas faces estão tisnadas. Estávamos sempre no fogo, cozinhando. Fomos queimados por vós”.

Como tantas epopeias provindas de outros contextos, o Popol Vuh é de início uma cosmogonia, narrando a origem do mundo em termos que podem ser comparados, por exemplo, a palavras presentes na abertura do Gênesis (“a terra era vazia e sem forma, havia trevas sobre o abismo”) ou, muitos séculos mais tarde, às concepções formuladas no primeiro canto do Paraíso perdido, de John Milton (“como do confuso Caos/ se ergueram no princípio o Céu e a Terra”).

O livro dos quichés, com seus exuberantes prodígios, logo porém demonstra que é fruto autêntico do solo americano, tornando-se genealogia, sem progressão linear e sem rigor cronológico, da constituição do povo e de seu reino. Modelada a paisagem, por ação das forças naturais divinizadas, e quando espécies animais já a percorrem, sendo contudo incapazes de louvar e lembrar seus criadores, planeja-se a criação de seres humanos, por etapas sucessivas de um jogo de tentativa e erro.

Homens de milho

Em moldes similares ao do Adão da Bíblia, o primeiro homem dos índios guatemaltecos foi todo feito de barro, material sempre disponível e fartamente utilizado, nas culturas mais diversas, em manifestações originais da escultura. Mas esse homem de barro, “molenga, aguado”, que não podia inclinar a cabeça nem sequer era capaz de olhar em volta ou mover-se, desmanchava-se à toa e se revelou imprestável. “Não vai durar”, deduziram os quichés, que recorreram então aos adivinhos para saber que novo ser construir. A solução indicada foi entalhar bonecos de madeira. Por algum tempo, a segunda geração funciona.

Tais bonecos se multiplicam, tendo filhas e filhos, até conseguem se mexer e falar, embora de um modo tosco, e atrevem-se à experiência de começar a povoar a Terra. Porém, se seu predecessor de barro era mole, as pessoas de pau são muito duras e secas, são insensíveis, agem como autômatos e não têm nenhum respeito pelas coisas sobre as quais seu poder se exerce. É justamente contra elas que as exploradas panelas se rebelam por falta de delicadeza e atenção. Aos utensílios a combater prepotência, de resto, irão unir-se os animais domésticos daqueles bonecos duros, um mero “ensaio de gente”, que os cachorros e os perus também sublevados ajudam a estraçalhar e matar. Os poucos sobreviventes da chacina fogem para a floresta, onde se transformarão em macacos.

Não é fácil criar um ser humano do nada, e a vida pode mesmo ser vista, sob certos prismas, como um esforço permanente para aprender a se transformar em pessoa. Os maias-quichés ou os míticos ancestrais dessa tribo todavia não desistiram, apesar das decepções que tiveram com seu protótipo de barro e suas caras de pau. “Era preciso completar a criação”, como diz o Popol Vuh, e “para completar a criação nós fomos chamados”, como viria a escrever, muito tempo depois, o poeta alemão Novalis.

A terceira e última tentativa para implantar gente no mundo foi fazer homens de milho, uma ação afinal bem-sucedida e facilitada pela ajuda de quatro animais solícitos — a raposa Yac, o coiote Utiú, o periquito Quel e o corvo Hoh —, que indicam para os antepassados dos índios o caminho até as terras onde crescia o vegetal precioso. Lembre-se de que o nome do milho, de raiz caribenha transmitida a várias línguas da área, significava na origem “o sustento da vida”.

Foi ele, o milho, a maior base alimentar das notáveis civilizações das Américas que cruelmente seriam dizimadas pelas invasões europeias. De grãos de milho bem moídos, na epopeia dos quichés, obteve-se a massa necessária à modelação de figuras. Uma espiga em si, que tem cabelo, pescoço, barriga, cujos grãos podem ser tomados por dentes e que se veste sutilmente de folhas modificadas, logo induz a imaginar, de fato, uma miniatura de gente. E a ideia de fazer gente de milho acaba por ter sentido mais amplo do que usar barro ou madeira, já que os bonecos de massa comestível se tornavam orgânicos, podendo se alimentar da própria matéria de que eram constituídos.

Castigo

Em 1524, o comandante da invasão espanhola Hernán Cortés, após submeter o México com a destruição dos astecas, mandou seu capitão mais afoito, Pedro de Alvarado, partir em busca das terras e eventuais riquezas das tribos da Guatemala. A dos quichés, sendo a mais poderosa, enfrentou como pôde as tropas do capitão, mas por fim não teve alternativa senão render-se à potência de suas armas de fogo. Alvarado prendeu os chefes indígenas e executou-os em público, pondo a população em debandada. Depois relatou em carta a Cortés a glória que julgava haver colhido com essas medonhas façanhas: “Como conheci de eles terem tanta má vontade para com o serviço de sua majestade e o bem e o sossego de esta terra, eu os queimei e mandei queimar a cidade, só lhe deixando os alicerces, porque é tão perigosa e tão forte que mais parece uma casa de ladrões que de povoadores”.

Supõe-se que o Popol Vuh que hoje temos proceda de um texto escrito por um (ou mais de um) índio quiché em sua própria língua nativa, a quem missionários católicos, pouco depois da invasão espanhola, teriam ensinado a ler e escrever em castelhano. 

No começo do século 18, o dominicano Francisco Ximénez, que viveu na Guatemala e se interessou pela língua e a cultura dos índios, fez uma cópia do original em quiché, que jamais voltou a ser visto, e no mesmo manuscrito, hoje preservado na Biblioteca Newberry, de Chicago, traduziu-o para o espanhol. Essa obra bilíngue de frei Ximénez tornou-se assim matriz e fonte de várias traduções depois surgidas em diferentes línguas e países.

“Isso escreveremos agora na palavra de Deus, agora na Cristandade”, diz em sua abertura o Popol Vuh, que em seu trecho final faz referência aos castelhanos já em solo quiché. A partir desses indícios, úteis para datar o texto, e de certos possíveis ecos de algumas prédicas bíblicas, pôde-se levantar a suspeita de que a criação dos maias tardios fosse obra mestiça ou híbrida, com discretos resíduos das missões de catequese católica.

Outra linha de interpretação propõe que o Popol Vuh tenha sido um documento político, com o qual os quichés, descrevendo em minúcias suas origens, crenças, tradições, como também as linhagens que os governaram, quisessem afirmar seus direitos como nação autônoma, fosse para se impor a tribos rivais, fosse para dar corpo à esperança de incutir respeito ou clemência nos invasores que punham fogo no mundo, homens de ferro.

Por sua vez, o caráter altamente simbólico de moralidade instrutiva, que ressalto no episódio da revolução das panelas, permeia toda a narrativa, como se a saga dos quichés também fosse um código pormenorizado e abrangente de regras de conduta. Sentimentos negativos ou trejeitos de personalidade nocivos ao bem-estar social ou ao convívio harmonioso, como a vanglória, a inveja, a vaidade, a arrogância, a preguiça, a raiva, são criticados com aspereza e punidos com castigos severos que os próprios acontecimentos impõem.

Há quem interprete o livro como documento político, com o qual os quichés quisessem se afirmar como nação autônoma

Há uma enorme sucessão de repreensões ou castigos desse teor nas histórias complexas e altamente detalhadas que ora se prolongam, ora se entrecruzam para levar ao aparecimento dos principais heróis da epopeia, os gêmeos Hunahpú (ou Hun Ah Pu) e Ixbalanqué (ou X Balam Ke). Seres prodigiosos, nascidos de um pouco de saliva que a cabeça de um morto pinga na mão de uma virgem, esses jovens têm como maior desafio contrapor-se ao poderio, ranhetice e ruindade dos senhores de Xibalba, o reino do inframundo, cuja grande diversão é atormentar os que vivem na superfície da Terra.

Decididos a vingar seus antepassados, que tinham sido atraídos ao inframundo apenas para lá serem mortos, os gêmeos aceitam um convite, levado por emissários, para disputar um jogo de bola com os senhores de Xibalba. Na realidade, estes odiavam a algazarra que os jovens faziam sobre suas cabeças broncas, jogando partidas entre si, como simples passatempo, num campo onde ingenuamente brincavam.

Os dois irmãos nascidos de uma cusparada, dançando, cantando, se disfarçando por engodo, sem nunca perder a alegria que a juventude lhes dava, inventam raras estratégias de astúcia e, como são protegidos pelas forças do bem, acabam por levar a melhor sobre os que planejavam matá-los, destruindo-os. Cumprida a missão que lhes coube, atiram-se então numa fogueira, num gesto triunfal e exemplar de sacrifício, e logo em seguida resplandecem no céu, transformados para sempre em Sol e Lua. Graças à atuação heroica e moralizante dos gêmeos, o mundo assim ficou livre daqueles bruxos irados que só queriam fazer mal e eram, como diz o texto, “os da guerra, os que incitam ao pecado, à discórdia, os de corações enterrados, os de duas caras, os invejosos, os tiranos, como são chamados”.

Traduzir-interpretar

No clima ilusionista que se estende pela longa estrutura do Popol Vuh, astros, plantas, animais, tudo enfim que nos rodeia e está vivo, acham-se num intercâmbio permanente e frutífero com os seres humanos. Uma cadeia alimentar inteira é acionada, por exemplo, para levar até os gêmeos, à guisa de correio, a mensagem enviada por Xibalba. É uma pulga ou um piolho que a recebe e guarda na barriga (sendo tão ínfimo o detalhe, as traduções divergem sobre a natureza do inseto). Mas, como a mensagem é urgente, logo um sapo prestativo, que dá pulos maiores, engole o primeiro portador. Uma cobra, que anda mais rápido, engole o sapo com o inseto e depois é engolida por um veloz gavião. Quando chega aos destinatários, o gavião vomita a cobra, que vomita o sapo, que vomita a pulga ou piolho, a quem cabe por sua vez vomitar o recado transportado em seu corpo.

Os animais em geral têm nomes próprios — o do sapo é Tamazul e a cobra grande se chama Zaquicaz —, como os fenômenos naturais, os rios, as montanhas e demais acidentes geográficos, num claro indício de que os quichés os respeitavam como entes integrantes de um mesmo e misterioso organismo que é partilhado por todas as espécies e nos dá vida e alimenta. Nem em todas as circunstâncias porém os animais são solícitos, é preciso compreender e aceitar suas necessidades e desejos, que muitas vezes estão em desacordo com os nossos.

Certo dia os gêmeos abriram uma clareira na mata, decididos a lá plantar uma nova roça de milho. Como eles eram seres prodigiosos, bastou decidirem isso para que suas ferramentas se encarregassem de fazer o serviço, derrubando sozinhas, sem jamais incomodá-los, a vegetação do local. Mas na manhã seguinte, quando os gêmeos voltaram para semear os grãos, eis que as árvores e arbustos estavam novamente de pé. Durante a noite, sobrepondo sua magia à deles, o jaguar, o veado, o coelho, a raposa, o coiote, o quati, o caititu e os outros bichos da área tinham feito o milagre de restaurar por completo a mata, da qual precisavam tanto, ordenando à vegetação abatida que se levantasse, ilesa, como antes.

O poder animal se revelou tão grande que até as ervas e espinhos capinados já estavam outra vez em grossas touceiras no solo fertilizado pelo tempo, simbolicamente bloqueando a extensão da fronteira agrícola — “las selvas sacrificadas por el maíz hecho hombre sembrador de maíz”, como ainda haveria de escrever o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, grande leitor e também, em 1927, tradutor do livro quiché.

Quadros assim tornam bem-vindas e úteis as duas traduções que nos chegam do Popol Vuh tão antigo. Tão repleto de portentos, ademais, que já houve quem visse nessa obra dos índios um substrato de inexplicáveis mistérios que iriam desabrochar tempos depois, em pleno século 20, nas ficções do realismo mágico criadas por autores latino-americanos como Gabriel García Márquez, Juan Rulfo ou o próprio Asturias.

Nada entendendo do texto impresso em quiché, que a edição da Iluminuras inclui, nem sendo especialista no assunto, não tenho como dizer se uma das traduções é melhor que a outra. Posso no entanto garantir que ambas, óbvios resultados de esforços e dedicação incomuns, trouxeram-me um grande alento e um sem-fim de surpresas, lidas, relidas e frequentemente comparadas que foram em dias de elevado prazer.

Os dois tradutores, afinal, são poetas e o que nos dão nesses livros são obras de indiscutível valor em português. Quem puder ler os dois, como eu fiz, será beneficiado como fui pelos textos complementares que se enfeixam nas edições primorosas: na da Ubu, a apresentação de Josely Vianna Baptista, “Jogo de espelhos de obsidiana”, o artigo “Arte e política no Popol Vuh”, de Daniel Grecco Pacheco, que atualiza o tema, e a longa e detalhada introdução de Adrián Recinos, que nos põe em contato com um pouco da história dos índios, além de relatar o percurso das várias traduções mais antigas de sua bela epopeia. Já a edição da Iluminuras contém uma excelente introdução de Gordon Brotherston, “Popol Vuh: contexto e princípios de leitura”, e um ótimo ensaio de Sérgio Medeiros, “O Popol Vuh eletrônico: mito e vanguarda”, que analisa reflexos da antiga saga na produção de criadores ativos durante o século 20, em especial o compositor Edgar Varèse e o escritor Jorge Luis Borges.

No tocante às traduções brasileiras, e em termos de qualidade em geral, nada melhor do que chamar atenção para a epígrafe lúcida de Dennis Tedlock, um dos tradutores do Popol Vuh para o inglês, com a qual se abre a apresentação que Josely Baptista Vianna faz de seu meticuloso trabalho: “Todo ato de tradução é também um ato de interpretação; os tradutores interpretam um texto já interpretado a fim de interpretá-lo ainda mais”.

Especificações Técnicas
Autor(a) Org. Sérgio Medeiros e Gordon Brotherston
Nº de páginas 480
ISBN 9788573215779
Largura 15,5
Altura 22,5

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