Cristal

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Paul Celan

 

Seleção e tradução: Claudia Cavalcanti

192 páginas | 14x21cm

ISBN: 85-7321-081-8

 

 

“Escrever história significa dar fisionomia às datas”. Essa máxima de Walter Benjamin ‑ que ele aplicou no seu Trabalho das passagens – também poderia servir como epígrafe à obra dessa sua “alma gêmea” que foi Paul Celan (Czernowitz, 1920 – Paris, 1970). Este, no discurso proferido no recebimento do Prêmio Georg Büchner, também afirmou que “escrevemos nosso destino, nós todos, a partir de tais datas”. A data que aparece de modo insistente nesse discurso é o “20 de janeiro”, data na qual Lenz, um personagem de um romance de Georg Büchner, “saiu pelas montanhas”. Para Celan não existem datas isoladas: toda data busca o encontro com outra data. Ele diz que também ele escreve a partir do seu 20 de janeiro. Por que essa data? Por que ao receber esse prêmio ele constrói o seu discurso a partir da data 20 de janeiro? Celan afirma ainda que “o poema hoje... mostra uma forte e inegável tendência para o emudecimento”. Também o poema – que sempre se dirige a um Outro, que busca o seu Tu, palavra-chave nos poemas de Celan – estende-se em torno de um “20 de janeiro”. Ele se constrói como uma “investigação topológica”: a busca de uma u-topia.Poema espacial – poesia muda – 20 de janeiro. Como compreender esses três dados essênciais da poética de Celan?

“Esta hora, tua hora / com minha boca conversas agora. / Com a boca, com o seu calar, / com as palavras e o seu recusar / Com os largos, com os estreitos, / com os naufrágios próximos...” (“Selbdritt, selbviert”). A data e o lugar de que os poemas do nosso autor falam são a data e o lugar de um naufrágio. A poesia volta a ser ritual – um kaddisch, outro termo chave da poética de Celan. Kaddisch (sagrado em aramaico) é o nome de uma reza ritual judaica que entre outras situações é proferida nos rituais em homenagem aos mortos, nos enterros, mas também no final da leitura de um tratado talmúdico. Estudo ‑ morte ‑ memória. No poema “Stretto” lemos que “fizemos silêncio sobre / silêncio de morte, grande”, mas sobretudo que “Nada, / nada está perdido”. O poema – que quer dar fala aos que naufragaram, poema que é o “meu grito” (“Com Brancusi, a dois”) – “porta a morte” (“Carregado de brilho”). É um testemunho que sabe da impossibilidade de se testemunhar pelos outros – pelos mortos (“Glória-cinza”). As palavras querem ocupar o espaço não atingível, a u-topia. Elas querem que aqueles que não têm voz falem através delas. “Uma palavra – tu sabes: / um cadáver” (“De noite, na escória”). Elas querem ao mesmo tempo enterrar os mortos e carregar a memória deles. Num poema que também dá voz à data de Celan, “Tubingen, janeiro”, ele fala de “palavras mergulhadoras”. A linguagem atravessa um “terrível emudecer”, cruza o “acontecimento” para o qual não há palavra: “o local não é dizível” (“Ouço, o machado floresceu”). Celan nos conta da “via de imagens, via de sangue, / atravessada-a-nado-por-palavras” (“Fome de claridade”). Ele quer limitar o sem-contorno, dar voz ao inexprimível – daí a sua “melancolia infinitamente tectônica” (“Sob a maré”).

Nos poemas aqui coligidos e traduzidos por Claudia Cavalcanti, o leitor poderá acompanhar Celan na sua tarefa angélica de redenção dos mortos e sentir o peso de sua densa escrita que nos puxa para o “local” do naufrágio e para o silêncio. (“Beba / da minha boca”, ele afirma em “O ano que se rompe”). Celan não faz poesia pura: ele faz poesia-evento, poesia-história. O seu “20 de janeiro” não é uma data qualquer, ela pertence a um ano específico: 1942. Nesse dia foi decidido numa mansão à beira do Lago Wansee, em Berlim, que a “solução final” para o “problema judaico” na Alemanha nazista era a câmara de gás.

Com Celan aprendemos que também se pode “escutar com a boca”. Adorno aprendeu isso sobretudo com este poeta e, revendo seu veredito contra a poesia após a Shoah, afirmou: “A dor perene tem tanto direito à expressão, como o torturado ao grito; por isso pode ter sido errado afirmar que não se pode escrever mais nenhum poema após Auschwitz”.

 

 Márcio Seligmann-Silva

 

NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA

Paul A. Anschel, filho de judeus de língua alemã, nasceu em Czernowitz (Bukowina) em 23 de novembro de 1920. O pseudônimo Celan se origina da transformação anagramática do nome romeno Ancel. Na cidade natal, faz os estudos pré-universitários, para em 1938 iniciar a faculdade de Medicina em Tours (França), e um ano depois a de Romanística em Czernowitz, que em 1941 acaba ocupada por tropas alemãs e romenas. Celan é enviado a um campo de trabalhos forçados; seus pais morrem num campo de concentração.

Terminada a guerra, Celan começa a trabalhar em Bucareste como assistente editorial e tradutor, atividade em que se destacou ao longo de sua vida. Em Bucareste, traduz obras de autores russos (Tchecov e Lermontov, por exemplo). Em Paris, dedica-se à literatura francesa (Valéry, Rimbaud e Michaux, entre outros), além de vários poetas russos, como Ossip Mandelstam, sempre autores aos quais se sente ligado pessoal e/ou poeticamente. Em 1947 ele deixa a Romênia e vai para Viena, onde publica, no ano seguinte, o livro Der Sand aus den Urnen, que manda recolher antes de mudar-se para Paris.

Na capital francesa, estuda Germanística e Linguística. A partir de 1950, trabalha como escritor e tradutor. Em 1952 Celan se casa com a artista plástica Gisèle Lestrange, com quem tem o filho Eric, nascido em 1955.

A partir de 1952 começam a ser publicados os seus livros de poemas: Mohn und Gedächtnis, daquele ano; Von Schwelle zu Schwelle, de 1955; Sprachgitter, de 1959; Die Niemandsrose, de 1963; Atemwende, de 1967; Fadensonnen, de 1968; Lichtzwang, de 1970. Em 1958 recebe o Prêmio Literário da Cidade de Bremen; em 1960, o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, cujo discurso de agradecimento está incluído no presente volume; em 1964, o Grande Prêmio Cultural de Nordrhein-Westfalen.

Os últimos livros de Celan, no entanto, não encontram mais tanta ressonância de público. Os anos que antecedem sua morte se caracterizam por tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia. Paul Celan acaba por suicidar-se no rio Sena, em abril de 1970.

Em 1971 é publicado seu livro Schneepart, organizado por ele antes mesmo de Lichtzwang. Uma reunião de poemas do espólio, sob o título Zeitgehöft, é publicada em 1976, assim como em 1985 seus primeiros poemas (Gedichte 1938-1944), numa época em que era claramente influenciado por Hölderlin, Rilke e Trakl. Em 1997, a Editora Suhrkamp reuniu os poemas do espólio sob o título Die Gedichte aus dem Nachla, escritos ao longo de sua vida. Apesar da origem judaica, de ter nascido na Romênia e das décadas em Paris, Celan sempre se fez entender como “escritor alemão”.

 

Claudia Cavalcanti

Especificações Técnicas
Autor(a) Paul Celan
Tradutor(a) Claudia Cavalcanti
Nº de páginas 192 páginas
ISBN 85-7321-081-8
Altura 14x21cm

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