O pão do corvo

O pão do corvo

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Modelo: Nuno Ramos
Disponibilidade: Em Estoque

 

No lugar de humanos se protegendo da matéria imponderável – vulcões, enchentes, tsunamis – quem sabe se não é ela, a matéria, em sua imanência, que precisa se proteger de nós: de nossa histeria falante, nossos corpos em gula, nosso cérebro infindavelmente reprodutor? Pode mesmo ser que tudo aquilo a que nomeamos “sujeiras” – pó, fuligem, grãos – seja, na verdade, a matéria se recobrindo e escondendo-se.

Assim tem início a “Lição de Geologia”, primeiro conto de O pão do corvo, numa linguagem falsamente técnica e ensaística que percorre o livro todo, enganando o leitor que, crédulo, quer aceitar o que se propõe como teoria.

Na verdade, não deixa de ser uma espécie de teoria, e até uma profissão de fé, o que vai se construindo aqui como ficção. É como se essa matéria que abre o livro e que – entropicamente – vai se defendendo de nós, comparecesse em todos os contos, assim gerando não somente um universo simbólico mas também filosófico. Afinal, em “Ele canta”, um “nós” protege seus frutos com lonas; em “O velho em questão”, um Proteu autobiográfico ouve vozes de pedras, de sal e de passos e quer, como utopia de vida, transformar-se em pedra; em “Vamos voltar para a neve” um “eu” vai cavando um buraco para que um “eles” escape da neve; em “Para a desaparecida”, de novo um “eu” – o mesmo, sempre? – tem que “rasgar a pele de estrada daquela estrada em que eu andava e a pele de tronco daqueles troncos”. E o mesmo poderia ser dito sobre todos os outros contos deste pão que, no lugar de nos ser trazido por algum animal arquetípico – uma pomba, um boi, um galo – vem no bico de um corvo.

Se, literariamente, estamos em meio a cifras prontas para nos enredarem numa teia sempre na iminência do compreensível – onde estava? eu ia entender, mas perdi –, há também uma ontologia sendo proposta, justamente através desse limite do que se pode e do que não se pode dizer.

São as palavras “rouba-tempo” e as “súbitas” que, como num duelo verbal, disputam o espaço destas narrativas. As “súbitas”, “cercadas de espanto por seu misto de precisão e harmonia”, são esse personagem que se camufla e que, por isso, apenas solta estampidos que o leitor vai compreendendo à medida que, enquanto lê, vai se libertando das “rouba-tempo”, tristes comentadoras de si mesmas.

É assim que O pão do corvo, por disfarces, vai “captando a frequência da matéria, da memória, dos afetos ou do que se esconde na sombra mais profunda” e vai espocando, como fogos que brotassem do interior da terra, jatos de linguagem e de histórias.

E desse mergulho, o leitor lento, aquele que teve coragem de penetrar no oco da palavra e das coisas, sai como se nu e mais disposto, também ele, a espantar-se.

 

Noemi Jaffe

 

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